segunda-feira, Junho 18, 2007

Cegos nas escolas

Alunos cegos frequentam, neste ano lectivo, 591 escolas básicas e secundárias a Há uma instrução que Amélia Lopes dá sempre aos alunos no primeiro dia de aulas: nunca ponham o dedo no ar quando quiserem pedir a palavra - a professora é cega. Há coisas, como sair da escola para experimentar tocar nas plantas ou nas pedras, que Margarida Loureiro considera fundamentais para aqueles que ensina - alguns são cegos.

Como aprende quem não vê? Foi do que se falou, numa manhã desta semana, no aparthotel de Lisboa onde Fernando Santos, cego, passou 11 dias a socorrer-se apenas da Internet para cumprir diversas tarefas do dia-a-dia, numa iniciativa que testou a acessibilidade dos sites portugueses.

E, a avaliar pelo que conta quem passou por esta experiência, é muitas vezes vencendo quase tudo o que a rodeia que uma pessoa que não vê aprende e completa o percurso académico. Há dificuldades que são óbvias, mas há outras que conseguem surpreender.
É esta expressão - surpresa - que Margarida Loureiro, professora de educação especial de alunos com baixa visão e cegos, utiliza. "O que me tem surpreendido é a atitude de alguns médicos na relação com os miúdos cegos e as famílias."

Com isso, diz, não estava mesmo a contar.

Uma das estudantes que a professora acompanha tinha uma carta de uma oftalmologista a dizer que precisava de frequentar uma escola especial. E quando a médica, numa consulta posterior, percebeu que a criança continuava no ensino regular, disse: "Mas o que é que ela está a fazer na escola? Ela não consegue aprender." Margarida conta, porque estava lá - vai com os estudantes às consultas.
Outro aluno não começou a aprender antes dos nove anos. "Só tivemos conhecimento dele quando o irmão mais novo entrou para a escola", na zona de Sintra, recorda Margarida Loureiro.
Nunca tinha tido qualquer contacto com braille nem com alguma espécie de ensino.
Amélia Lopes, cega, professora de Português e Francês no ensino regular, esteve até mais tarde alheada do mundo. Nasceu numa aldeia do interior, filha de pais analfabetos. Aos seis meses teve sarampo; correu muito mal.

"Apanhou-me os olhos. Não me pergunte como nem porquê, mas foi isso que me cegou. Nunca
tive uma visão que me desse a possibilidade de ir à escola como qualquer outra criança." Aos 17 anos deixou por completo de ver.

Com 18 disse aos pais que vinha a uma consulta de Oftalmologia a Lisboa e nunca mais regressou. Começou por vir ter com uma prima. Aprendeu braille, preparou-se para o exame da 4.ª classe. Nunca mais parou de estudar. Licenciou-se na Faculdade de Letras.
Agora, aos 53 anos, continua a dar aulas e a sentir que "é preciso preparar os professores" que estão nas escolas: "Uma pessoa cega [professor ou aluno] não é um extraterrestre e não traz as dificuldades que eles às vezes pensam que traz."

Quando se fala em dificuldades, Ana Oliveira, cega, de 39 anos, pensa logo nos tempos de faculdade. "Não havia professores de apoio, não havia livros [em braille], não havia nada."
Ana gravava as aulas para depois estudar. Mas como estava muito habituada a estudar por apontamentos (no ensino secundário anotava tudo numa máquina de braille, à medida que os professores falavam), era-lhe difícil reter a matéria quando apenas a ouvia. "Dava-me ao trabalho de passar as cassetes todas para braille, por isso o curso demorou seis ou sete anos."
Diz que pelo meio se apaixonou pela informática. E levar um computador portátil para as aulas "fez toda a diferença". Alguns professores continuavam a falar muito depressa, mas ela escrevia "bastante rápido".

Fonte: http://jornal.publico.clix.pt/

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